Professores não concordam com o Meta 4

Grande parte do corpo docente se posiciona contra medida do governador Beto Richa, a implantação do sistema de RH Meta 4

Reportagem: Maria Vitória Ticiani e Marina Gallo, 4º ano matutino
Edição: Luana Harumi, 4º ano matutino

Professores, estudantes e funcionários em mobilização contra ações do governador Beto Richa. Foto: Maria Vitória Ticiani.

Não é segredo que a Universidade Estadual de Londrina (UEL) enfrenta diversos problemas, especialmente, em confronto com o Governo do Paraná do tucano Beto Richa. Em apenas dois anos, houve três greves. O mais recente impasse é em relação a um software de controle das folhas de pagamento, o chamado Meta 4.

De um lado, o Governo Estadual, para quem a adesão ao sistema proporcionará mais “transparência dos gastos” da UEL. De outro, a universidade, que luta por sua autonomia financeira, ameaçada pelo Meta 4. Devido à rejeição ao projeto, o governador Beto Richa bloqueou R$ 6 milhões do orçamento interno da UEL. Outras universidades já aderiram ao novo sistema (UENP, UEPG e Unespar).

Uma das propostas para o fim da greve de 2015 era tirá-las desse sistema. A proposta de recusar ou aderir ao Mata4 foi votada pela UEL no dia 13 de junho, no Conselho Universitário e a decisão de recusar a proposta enviada pelo Governo do Estado foi unânime.

Decisão correta

Beto Klein, professor do Departamento de Comunicação. Foto: Maria Vitória Ticiani.

“A decisão da UEL em não aderir ao Meta 4 é uma decisão correta, porque ela é uma orientada por princípios constitucionais. A gente precisa, em primeiro lugar, da autonomia da universidade. A autonomia universitária é uma garantia da constituição federal. Vivemos um momento que a universidade pública está sendo atacada por todos os lados e esse programa, o Meta 4, que é um software, tem uma questão política envolvida nessa transferência da folha de pagamento para este software, que é justamente o fim da autonomia. O Palácio do Iguaçu vai gerir todas as ações da UEL em nível financeiro, não só em termos de promoção da carreira docente, mas também em ações do cotidiano da universidade, como financeiramente de pesquisa, financeiramente de professores e estudante em congresso. O que acontece hoje, em diversos níveis, tanto na graduação quanto na pós graduação. Enfim, o funcionamento da universidade vai ficar completamente em risco em função de um software que tende, não só burocratizar ainda mais sistema. No fim ele tira a possibilidade da universidade de se autogerir. Isso é um absurdo sem precedentes na história da universidade e vem sendo tratado pelo Governo com argumentos para entrarmos no Meta 4 que são falaciosos. Em primeiro lugar, o Governo fala que precisa ter mais transparência. Ora, os processos internos e da gestão acadêmica são amplamente divulgados, são transparentes. Inclusive temos nossos salários no portal da transparência e conseguimos ver em que nível de carreira estamos. Não há forma de esconder isso. A gente precisa destruir esse argumento de que a universidade não é transparência, pois ela é transparente, sim. O que não é transparente são algumas atitudes do Governo. Outro argumento falacioso é que a universidade custa muito. Isso é verdade, a universidade custa muito. Por um lado, ela custa muito pouco perto de outros orçamentos que estão no próprio Palácio do Iguaçu. Se formos comparar os gastos que a universidade tem com a nossa Assembleia Estadual Legislativa, é muito pequeno. Ou seja, a gente precisa ver quanto de retorno as universidades trazem para a sociedade e quanto de retorno, por exemplo, outros setores que são mais privilegiados também trazem. Nesse sentido, a universidade custa pouco perto de outras planilhas orçamentárias do estado.”

Agressão à autonomia

Kennedy Piau, professor do Departamento de Artes. Foto: Maria Vitória Ticiani.
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Dia de Mobilização

No dia 20 de junho, professores da UEL levaram ao Calçadão de Londrina projetos de extensão e de pesquisa para mostrar a importância da universidade para a comunidade. A professora Sandra Oliveira esteve na mobilização.

Sandra Oliveira, professora do departamento de Educação. Foto: Maria Vitória Ticiani.

“Estamos hoje reunidos no calçadão fazendo esta mobilização para mostrar a UEL para a comunidade e para lutar contra várias coisas. Uma delas é a inclusão da UEL no Meta 4. Por que eu me posiciono contra essa questão? Porque a inclusão da UEL no Meta 4 afeta diretamente a questão da autonomia da universidade. A princípio, uma análise vazia da questão nos leva a compreender que se trata somente da folha de pagamento, somente do gerenciamento financeiro. Porém, se formos desmembrar o que isso significa nos pormenores do cotidiano de uma universidade, percebemos que as consequências são bastante sérias e acabam atingindo aquelas áreas que não são por excelência privilegiadas pelo investimento da pesquisa. Porque em um sistema que prevê retorno financeiro, são áreas que não dão este retorno. Nem toda área de investimento de pesquisa e que é necessária para o crescimento do país, traz investimento financeiro. O que acontece é que a universidade acaba cerceada nos seus direitos de escolha, de organização da composição financeira e isso afeta, e muito, o fazer de todo o corpo universitário. A minha posição é contra. Não é só o Meta 4, não é agora que estamos vivendo isso. A universidade está vivendo um processo de sucateamento há muitos anos e a situação que vivemos, neste momento, é a gota d’água.”

“A universidade é transparente”

Ronaldo Gaspar, professor do Departamento de Ciências Sociais. Foto: Roberto Navarro/Assembleia Legislativa do Estado de SP.
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Eliana Carolina Vesparo, coordenadora do Colegiado de Farmácia. Foto: Maria Vitória Ticiani.

Comprometimento da universidade

“A decisão de não aderir ao Meta 4 foi ótima, decidia pelo Conselho Universitário. Se a gente ceder, a qualquer momento o governo vai tirar toda a autonomia, todos os direitos conquistados pela UEL. Isso implicaria em comprometer aperfeiçoamento de curso, mestrado, doutorado, pós-doutorado. Então tudo isso dependeria da anuência do governador. Toda a verba da UEL também depende da anuência do governador. Então ele quer ter o controle, a promoção dos professores, dos funcionários e quando ele estiver disposto, ele vai dar o aumento. Sou totalmente a favor da não aderência do Meta 4.”

Chantagem política

Márcia Neme Buzalaf, professora do Departamento de Comunicação. Foto: Maria Vitória Ticiani.
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Confira o álbum fotográfico da mobilização do dia 20 de junho. Fotos: Marina Gallo e Maria Vitória Ticiani.